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Entrevista a Thor, aventureiro e embaixador da boa vontade da Cruz Vermelha Dinamarquesa
Sexta, 28 Julho 2017 10:04
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Em 2013, Thor tinha 34 anos quando decidiu lançar-se na maior saga da sua vida: percorrer todos os países do mundo por mar e terra, enquanto embaixador da boa vontade da Cruz Vermelha Dinamarquesa.

Na sua segunda passagem por Portugal, Thor fez-nos uma visita para contar como tem sido esta viagem.

O que o levou a iniciar este projecto?

T: Bem, é importante realçar que a minha formação académica em Transportes e Mercadorias teve grande peso na decisão quanto ao tipo de projecto que iríamos fazer. Antes de o iniciarmos eu já tinha trabalhado em mais de 54 países, sendo até um deles Portugal (em Aveiro), mas tudo começou quando um dia vi uma notícia no jornal de um jovem que tinha viajado por quase todo o mundo, com um orçamento muito reduzido. Eu, que pensava que para isso era preciso tempo e muito dinheiro, fiquei muito entusiasmado com a ideia, ainda mais quando comprovei que nunca ninguém havia visitado todos os países do mundo sem apanhar um avião.

E foi fácil tomar essa decisão?

T: Não. Ao início toda a minha família e amigos me diziam para não devia ir, que já não tinha idade para isto, que ia perder muito tempo, mas… esta era a vida pela qual sempre sonhei e já sabem como é quando estamos entusiasmados com uma ideia. Um amigo e depois outro foram sendo contagiados pela possibilidade e quando, demos conta, éramos um grupo de 4 a trabalhar arduamente no planeamento da missão. Foram 10 meses de planeamento e em Outubro de 2013 partimos para o primeiro destino.

No entanto, a viagem tem a particularidade de ajudar a chamar a atenção para o trabalho da Cruz Vermelha. Como é que começou esta relação e como é que a Cruz Vermelha vem sendo integrada neste projeto?

T: A minha colaboração com a Cruz Vermelha Dinamarquesa (CVD) já vem de muito longe. Desde muito cedo que me tornei voluntário. Formei-me como delegado de logística das equipas de respostas de emergência (apesar de nunca ter sido alocado, por ter partido nesta saga) e trabalhava num dos centros de acolhimento da CVD. Pouco tempo depois de iniciarmos o planeamento da viagem, chegámos à conclusão que toda esta experiência não podia ficar apenas para memória pessoal dos que a viveriam. Tendo conhecimento da existência de Sociedades Nacionais em quase todos os países do mundo, achámos que era intrínseco ao projeto conhecer todas as Sociedades Nacionais do Movimento, partilhar experiências e ideias, com o objectivo muito claro de mostrar que onde quer que seja, em qualquer canto do mundo, a Cruz Vermelha está “Sempre Presente” (Always Present é o lema que partilha).

E são muitas as diferenças entre as Sociedades Nacionais?

T: Sim e não. As Sociedades Nacionais e o seu trabalho são reflexo das necessidades de cada local e daí são todas diferentes. Mas indo além dos recursos disponíveis ou não, das oportunidades existentes ou não, e das diferenças culturais, é ponto comum que a Sociedade Nacional responde, sob os Princípios Fundamentais do Movimento, às necessidades locais e a vontade e motivação para fazer mais e melhor está sempre presente. Mas todos os domingos eu promovo na página do Facebook uma publicação denominada “RCSunday” onde se retrata a história de uma Sociedade Nacional e aí é possível ter uma perspectiva geral daquilo que é o Movimento.

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Qual foi o maior desafio enfrentado nesta saga?

T: O maior desafio até hoje foi sem dúvida a travessia até ao Gana. Não por uma situação específica, mas por um conjunto de condicionantes! Para vos contextualizar, eu tinha combinado encontrar-me com a minha noiva (sim, eu tenho uma noiva e também a pedi em casamento durante a saga!) no Gana para umas férias de 3 semanas. África estava sob a ameaça do surto de Ébola pelo que as entradas e saídas dos países estavam condicionadas. Quando chego à fronteira com a Costa do Marfim, não me deixam passar. Simplesmente dizem que não! Todos os documentos estavam em dia e não me deixavam passar. Portanto estava isolado, a 45 minutos de rede de telemóvel e internet e não podia tentar entrada por nenhuma outra fronteira porque não tinha mais páginas disponíveis no passaporte… Esperei uns dias na fronteira até que me foi concedida uma reunião nesse mesmo local – mesmo no meio da ponte, tipo filme da Guerra Fria – onde tive que explicar os motivos da minha estadia no país. Não me deixaram entrar, tinham receio que, com o surto de Ébola, pudesse existir alguma transmissão do vírus. Tive de fazer numerosos contactos (depois de viajar 45 minutos para conseguir rede!) para conseguir que me dessem a possibilidade de autorização! Para isso, só tinha de entregar uma declaração assinada pela comissão de controlo do Ébola, pelo Ministro da Saúde e pelo Ministro da Defesa… “Acabou-se”, pensei eu. Achei que não ia conseguir nunca encontrar-me com ela, que já me esperava no Gana, mas com a ajuda da CVD conseguimos! Entreguei os papéis, tinha um representante da CV do outro lado da fronteira à minha espera e teria que fazer um rastreio nas primeiras horas da estadia. Demorou 2 horas até que decidissem que não havia mais forma de travar a minha entrada no país.

Parece que este episódio chegou ao fim, não parece? Mas não. O fim ia acontecendo quando na primeira noite no Gana, já com a minha noiva, tive um surto de malária cerebral que me obrigou a tomar 25 comprimidos por dia, durante 12 dias. Foram as piores férias que já tivemos!!

Qual foi a experiência mais caricata numa Sociedade Nacional?

T: As SNs têm tido diferentes formas de me receber, mas acho que a mais caricata e diferente foi sem dúvida nas Ilhas Maurícias. Quando cheguei tinha uma comitiva à minha espera para uma reunião de apresentação, o que tem sido comum na maior parte dos países. O caricato foi que, depois da reunião, entregaram-me literalmente a 3 voluntários da Juventude que não me largaram a semana inteira! Dormiam no mesmo sítio que eu, comiam comigo, íamos juntos para todo o lado e, assim sim, foi o verdadeiro sentido do “Always present”!

Uma mensagem final?

T: Sim, gostava que as pessoas vissem este projecto como “inspirador”. É importante perceber que o mundo não é perfeito, como todos sabemos ou temos ideia, mas que também não é tão mau assim, pelo contrário! Tem muito mais coisas boas que más e é essencial que todos façamos por valorizar e recuperar o que realmente é importante. Gostava também que as pessoas tivessem noção do quanto a Cruz Vermelha faz por isso. Porque na verdade, já não interessa quantos países são, mas sim quantas pessoas diferentes vamos conhecendo e o que elas fazem por este mundo.

Nota: o mealheiro que carrega representa a Cruz Vermelha Dinamarquesa e é o símbolo do dia anual de angariação de fundos no país, onde todos fazem questão de participar e carregar o seu mealheiro. Todas as fotografias com este mealheiro são uma forma de estar “Sempre Presente” (Always Present”).

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Para acompanhar a saga de Thor:

Site www.onceuponasaga.dk

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